A história da Chocolates Garoto é uma das mais intrigantes. É uma história de como uma empresa que foi líder de mercado, que inovava, que crescia consistentemente, foi derretendo por dentro. E tudo começou com uma decisão que muitos empresários adiam: planejar a sucessão.
Na edição de hoje:
A ascensão de um império: Compra fluxos de caixa previsíveis. Estrutura, não volume.
O Conflito invisível: Como a falta de planejamento destruiu uma empresa por dentro
As lições para sua empresa: O que aprender independente do tamanho.
De 1929 a 1990: A Ascensão de um Império
Henrique Meyerfreund era um imigrante alemão que chegou ao Espírito Santo com uma ideia simples: fazer chocolate. Em 1929, ele funda a fábrica de balas em Vila Velha. Cinco anos depois, em 1934, recebe uma herança de seus pais, máquinas alemãs e amplia a produção. Nasce a marca Garoto.
Durante décadas, a Garoto cresce. A empresa inova, cria produtos icônicos (Serenata de Amor, Batom), e se torna referência no mercado. Nos anos 1980, mesmo em meio à crise econômica brasileira, a Garoto se mantém inovadora. Em 1987, alcança a liderança do mercado de chocolates no Brasil. É a maior fábrica de chocolates da América Latina.
Henrique Meyerfreund tinha filhos. Ferdinand, Helmut, Klaus, Paulo. Cada um cresceu vendo o pai construir esse império. Cada um tinha ideias sobre como continuar. E aqui começa o problema.
Henrique nunca planejou a sucessão. Nunca documentou como a empresa funcionava. Nunca preparou seus filhos para trabalhar juntos. Nunca criou uma estrutura de governança que permitisse que múltiplos líderes tomassem decisão sem destruir a empresa.
O conflito invisível: Quando a sucessão falhou
Quando Henrique saiu de cena, seus filhos herdaram não uma empresa. Herdaram uma estrutura que funcionava porque Henrique estava lá. E herdaram conflitos que nunca foram resolvidos.
Nos anos 1990, a Garoto ainda faturava bem. Mas por dentro, algo estava se desintegrando. Os filhos de Henrique tinham visões diferentes. Sem governança clara, sem processos de decisão estabelecidos, esses conflitos começaram a consumir a empresa. Decisões eram tomadas e revertidas. Talentos saíam porque não sabiam em quem acreditar.
No fim dos anos 1990, Helmut foi destituído da presidência por Klaus e Paulo. Não foi uma decisão técnica. Foi política. Essa destituição não resolveu o conflito, agravou. Agora havia um herdeiro destituído e dois herdeiros sem legitimidade. A empresa que era liderada por uma visão clara agora era liderada por conflito.
De fora, ninguém via. Os produtos vendiam. O faturamento crescia. Mas de dentro, a empresa desintegrava. E o mercado sentia. Confiança é invisível até desaparecer.
Em 2002, a Nestlé ofereceu comprar. A família vendeu. Mas o CADE bloqueou por concentração de mercado. Começou uma disputa de 20 anos. Vinte anos de incerteza. Vinte anos de uma empresa que não sabia se era dela ou da Nestlé. Em 2023, o CADE aprovou. A Garoto virou marca da Nestlé.
70 anos como empresa familiar independente. Perdeu 20 anos em disputa. Perdeu sua independência. Perdeu seu futuro. Tudo porque a sucessão não foi planejada.
O que a história da garoto nos ensina?
A maior lição aqui não está no erro do passado, mas no que podemos aprender para o presente e o futuro das empresas:
1 – Crescimento não resolve todos os problemas, estrutura resolve
Mesmo com alto faturamento, uma empresa sem governança, planejamento sucessório e estrutura organizacional forte está sujeita a quedas inesperadas. O crescimento mascara os problemas. Até que não consegue mais.
2 – A sucessão é o maior risco invisível
Planejar quem vai assumir, como a gestão será passada e garantir a continuidade da cultura organizacional são tarefas essenciais para qualquer empresa que queira prosperar no longo prazo. Esse risco não aparece nos balanços. Mas destrói empresas
3 – Governança não é só para grandes empresas
Não importa o tamanho da sua empresa, ter processos de governança claros é o que vai garantir que ela se mantenha competitiva e saudável, mesmo após a saída de líderes chave. Governança é o que permite que uma empresa sobreviva às pessoas.
O que fazer para garantir o futuro da sua empresa?
Se você não quer que sua empresa se torne mais um caso como o da Garoto, é hora de começar a pensar na sucessão agora. Não importa se o fundador está no comando ou se já há uma segunda geração liderando a empresa. O planejamento estratégico para a transição de liderança precisa começar cedo, com base em governança sólida, processos estruturados e planejamento tributário.
Aqui estão os passos que você pode dar hoje:
1 – Revise a governança da sua empresa
Garanta que há processos claros para tomada de decisão e que todos os envolvidos entendem sua responsabilidade. Documentar é essencial.
2- Crie um plano de sucessão
Defina quem será o sucessor e como a transição acontecerá. Tenha um processo de integração para garantir que a liderança da nova geração seja alinhada à cultura e objetivos da empresa.
3 – Envolva profissionais externos
Muitas vezes, o conflito familiar ou a falta de objetividade podem prejudicar a gestão. Consulte advogados especializados, consultores e mentores de negócios para ajudar na transição.
Não deixe sua empresa derreter!
A história da Garoto é uma lição. Mas não precisa ser a sua história. A Tess trabalha com empresários que querem aprender com esses casos e criar empresas feitas para durar. E garantir que seus 20, 30, 40 anos de trabalho não desapareçam em conflitos familiares.
Até a próxima semana 👋
By Kaline Marchiori