Toda fase de crescimento fabrica a próxima crise

Uma investigação profunda sobre como o sucesso de hoje constrói silenciosamente os limites que exigirão uma nova forma de administrar amanhã.

Nesta edição, mergulhamos no clássico modelo de Larry Greiner para entender por que crescer não é apenas subir, mas abandonar sucessivamente o modelo de gestão que nos trouxe até aqui.

Na edição de hoje:

O paradoxo: quando a solução de ontem vira a crise de hoje

A escada do crescimento: de fase em fase na vida da empresa

O erro clássico de duplicar a dose da solução antiga

O ensinamento definitivo para liderar a próxima transição


O paradoxo do crescimento corporativo

Existe um tipo de crise particularmente difícil de perceber no dia a dia das empresas. Ela não começa quando alguma coisa dá errado. Não é um rombo no caixa, uma quebra de safra ou a perda repentina de um grande cliente.

Ela começa quando alguma coisa dá certo por tempo demais.

Foi exatamente esse paradoxo que o pesquisador Larry Greiner identificou ao estudar como as organizações crescen ao longo dos anos. Sua conclusão, contraintuitiva e desconfortável, revela que as práticas de gestão que ajudam uma empresa a avançar em determinado estágio tendem, com o tempo, a criar as tensões que exigirão uma nova forma de administrar.

Em outras palavras: enquanto você resolve com maestria a crise de hoje, pode estar construindo, sem perceber, a crise de amanhã.

Para visualizar esse movimento, o mais adequado é não pensar no crescimento como uma linha reta e previsível, mas sim como uma escada. A empresa sobe um degrau, encontra uma nova complexidade e precisa aprender uma nova forma de gerir para continuar avançando. O detalhe é que cada degrau cobra seu preço da liderança: aquilo que funcionava perfeitamente no nível anterior começa a perder eficiência no seguinte.

A escada evolutiva da gestão

Cada fase de expansão soluciona uma tensão anterior, mas acumula os limites que forçam a próxima transformação.

A jornada: da centralização à burocracia

Pense no início de uma empresa. Existem poucas pessoas, pouca estrutura e muita energia para fazer acontecer. O fundador está próximo de tudo: vende, negocia, contrata, acompanha clientes, aprova pagamentos e resolve problemas operacionais. As decisões saem na velocidade da luz porque quase todas passam por ele.

Chamamos isso de centralização. Naquele estágio inicial, ela é exatamente o remédio que a empresa precisa. Até funcionar bem demais. A empresa cresce, os clientes se multiplicam, novas pessoas chegam e o volume de decisões cresce exponencialmente. Só que a capacidade de processamento do fundador continua sendo a mesma. A solução que antes gerava agilidade passa a travar o negócio.

A resposta clássica é profissionalizar a gestão. Criam-se processos, cargos de liderança, hierarquia e uma direção mais clara. E funciona! Até que os gestores intermediários percebem que têm muita responsabilidade, mas pouca autonomia real para decidir. Tudo ainda precisa subir para o topo.

A empresa então aprende a delegar. Os gestores ganham espaço e a velocidade retorna. Só que, conforme áreas diferentes decidem com total independência, a diretoria sente a vertigem: “Estamos perdendo o controle”.

A resposta natural? Indicadores, metas, orçamentos, sistemas, reuniões de alinhamento e políticas corporativas. Funciona para coordenar uma operação gigante… até que o excesso de controle vira burocracia. A aprovação que garantia segurança passa a engessar a inovação. E a empresa precisa mudar de novo.

O erro de aumentar a dose da solução antiga

É nesse ciclo que muitas organizações cometem um erro fascinante: diante de uma nova crise de crescimento, elas aumentam a dose exata da solução que funcionou no passado.

Perdeu o controle? Criam mais camadas de aprovação. As pessoas erraram? O fundador puxa o poder de volta e centraliza as decisões. Os setores não conversam? Multiplicam as reuniões semanais. A operação ficou lenta? Cobram mais velocidade sem mudar o processo.

Mas o problema raramente é a falta daquela solução. Muitas vezes, é exatamente o excesso dela. Uma empresa maior não é uma empresa pequena com mais faturamento e mais gente; ela exige outra arquitetura de decisões e outro nível de maturidade cultural.

Em algum momento, crescer deixa de ser apenas adicionar camadas e passa a exigir substituir pilares: trocar a centralização por liderança distribuída, a intuição por indicadores confiáveis, e o controle rígido por colaboração inteligente.

O ensinamento definitivo: mudar antes que a crise exija

Imagine uma empresa que fatura R$ 20 milhões e define como meta chegar a R$ 50 milhões. O plano estratégico traz projeções comerciais detalhadas, planos de expansão, novas contratações e aportes de capital.

Mas quase nunca alguém faz a pergunta que realmente determina se a meta será alcançada: “Que tipo de organização precisamos nos tornar para administrar um negócio de R$ 50 milhões?”

É plenamente possível possuir produto e mercado para faturar R$ 50 milhões, mas continuar operando com a cabeça, os rituais e os controles de quando a empresa faturava R$ 15 milhões. Quando isso acontece, a receita atropela a estrutura, a equipe cresce mais rápido que a cultura, e o fundador tenta gerenciar uma realidade nova com o modelo de uma empresa que já não existe.

Por isso, nas suas reuniões de planejamento, não pergunte apenas: “O que precisamos começar a fazer?”. Faça a pergunta mais corajosa: “O que precisamos deixar de fazer porque pertence ao estágio que acabamos de superar?”

O grande ensinamento que Larry Greiner nos deixa é que o maior obstáculo ao crescimento de uma empresa bem-sucedida não é a concorrência externa, mas a sua própria relutância em abandonar o passado.

Se a sua empresa mudou muito nos últimos anos, mas a forma como ela é administrada continua exatamente a mesma, atenção. Os números podem estar ótimos hoje, mas a próxima crise pode estar sendo gerada exatamente agora — disfarçada de um sucesso que ainda funciona, mas já encontrou o seu limite. A maturidade empresarial reside exatamente na coragem de redesenhar a casa enquanto o telhado ainda não está vazando.

Sua gestão está pronta para o próximo degrau?

Até a próxima semana 👋

By Kaline Marchiori

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