O Brasil escolheu. E agora?

Durante meses, o Brasil discutiu quem deveria governar o país. Pesquisas viraram assunto de mercado, declarações mexeram com expectativas, empresários recalcularam cenários e, por algumas semanas, pareceu que o futuro da economia dependia exclusivamente do resultado das urnas.

Agora o resultado está dado. E talvez seja justamente hoje que comece a parte mais interessante.

Porque uma eleição pode mudar o governo, mudar expectativas, alterar a percepção de risco e até o preço de alguns ativos. Mas ela não muda a realidade de uma empresa na manhã seguinte. A folha continua vencendo, o cliente continua negociando preço, o banco continua cobrando juros, o estoque continua parado ou girando, a margem continua sendo margem.

E uma decisão ruim continua sendo uma decisão ruim, independentemente de quem esteja sentado no Palácio do Planalto.

É uma constatação simples, mas que às vezes esquecemos: a política influencia o ambiente em que uma empresa opera. Não substitui a empresa.

 

Na edição de hoje

° O curioso poder das expectativas e por que elas movimentam a economia antes mesmo de qualquer mudança concreta.

° O que uma eleição pode mudar e o que continua sendo responsabilidade de quem está dentro da empresa.

° Por que, depois de meses olhando para Brasília, talvez seja hora de voltar os olhos para dentro.

 

O curioso poder das expectativas

Existe algo fascinante na economia: às vezes, antes mesmo de uma medida ser tomada, o comportamento das pessoas já mudou. Um empresário adia um investimento porque acredita que os juros continuarão altos. Outro acelera porque espera uma melhora do ambiente. Um investidor compra, outro vende. Uma empresa segura caixa, outra aproveita para comprar um concorrente.

Nada disso aconteceu porque uma lei mudou. Aconteceu porque as pessoas acreditaram que alguma coisa iria mudar.

É por isso que eleições são tão importantes para a economia. Não apenas pelo que o próximo governo fará, mas pelo que empresas, investidores e consumidores acreditam que ele fará. O mercado tenta antecipar decisões, precifica riscos e oportunidades, e as expectativas começam a produzir efeitos antes mesmo de as políticas existirem.

Só que expectativa tem prazo de validade. Depois da eleição, chega a parte menos glamourosa: orçamento, Congresso, arrecadação, juros, produtividade, investimentos, reformas e execução.

A realidade sempre acaba cobrando a conta da expectativa.

 

Existe uma diferença entre administrar um país e administrar uma empresa

Talvez esse seja o ponto que mais interessa ao empresário.

Governos podem criar incentivos, aumentar ou reduzir impostos, alterar regras, estimular investimentos, controlar gastos e mudar completamente o ambiente de negócios. Isso importa muito. Mas existe uma fronteira que nenhum governo atravessa.

Ele não sabe qual cliente sua empresa deveria manter ou abandonar. Não sabe qual produto tem margem ruim, qual vendedor precisa ser desenvolvido, qual máquina está parada, quanto caixa deveria ser preservado ou qual investimento deixou de fazer sentido.

E, principalmente, não conhece as decisões que você está adiando.

Essa fronteira é importante porque, em momentos de grande discussão política, é muito fácil terceirizar a responsabilidade. A economia está ruim. O governo atrapalha. O imposto aumentou. O mercado está difícil. O crédito está caro. Tudo isso pode ser verdade.

Mas existe uma pergunta que continua sendo nossa:

o que estamos fazendo com aquilo que está sob nosso controle?

 

O Brasil não é uma planilha. E uma empresa também não.

Talvez uma das coisas mais perigosas em períodos eleitorais seja a vontade de transformar tudo em uma previsão. Qual será o dólar? Quanto será a Selic? O PIB vai crescer quanto? Qual imposto vai mudar? Qual setor vai ganhar? Qual setor vai perder?

Precisamos acompanhar tudo isso. Mas existe uma diferença entre acompanhar o cenário e acreditar que conseguimos prever o futuro.

Nenhum empresário precisa acertar todas as variáveis. Precisa perceber quando elas começam a mudar.

É uma diferença enorme. Porque empresas boas não são necessariamente aquelas que preveem o futuro com precisão. São aquelas que percebem a mudança cedo o suficiente para reagir.

 

Talvez a eleição revele mais sobre nós do que sobre o governo

Durante uma eleição, milhões de pessoas depositam expectativas em uma escolha. Esperam que um candidato resolva a economia, que outro melhore a segurança, que outro reduza impostos, que outro faça o país crescer.

No mundo empresarial, fazemos algo parecido.

Esperamos que o mercado melhore, que o cliente volte a comprar, que os juros caiam, que a equipe amadureça, que aquele projeto finalmente dê certo, que o próximo trimestre seja melhor.

Às vezes, esperamos tanto pelas condições ideais que esquecemos de uma coisa bastante inconveniente: empresas são construídas justamente quando as condições não são ideais.

Foi assim em crises, recessões, períodos de inflação, mudanças tecnológicas e transformações de mercado. Grandes empresas não cresceram porque o mundo lhes entregou um cenário perfeito. Elas aprenderam a operar em cenários imperfeitos.

Talvez essa seja uma das diferenças entre empresas que atravessam ciclos e aquelas que ficam reféns deles.

 

O dia seguinte é onde a história realmente começa

A eleição termina em um domingo. Hoje segunda-feira, o país continua funcionando. Empresas continuam produzindo, pessoas continuam trabalhando, contratos continuam existindo, dívidas continuam vencendo e investimentos continuam sendo avaliados.

E o novo governo descobrirá rapidamente que governar é muito diferente de vencer uma eleição.

Porque ganhar produz expectativa.

Governar produz consequência.

Para o empresário, talvez a mesma lógica seja válida. Uma boa decisão pode produzir expectativa. Uma boa execução produz resultado.

Por isso, depois de meses olhando para Brasília, talvez seja hora de voltar os olhos para dentro.

Não para descobrir quem ganhou. Isso já sabemos.

Mas para perguntar:

O que continuamos fazendo, mesmo que o cenário não seja exatamente aquele que gostaríamos?

Porque o país muda. O governo muda. As regras mudam. O mercado muda.

E, no meio de tudo isso, existe uma coisa que continua sendo responsabilidade de quem está sentado à mesa da empresa:

decidir.

 

Até a próxima semana 👋

By Kaline Marchiori

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